Estações e Canções
Tirei esta fotografia no ano passado (ou no ano anterior?) no Central Park. Já não levo o telemóvel comigo quando caminho. Esquecia-me dele e depois decidi continuar a esquecer-me. Gosto de ver o que estou a ver, de vivenciar por si só. No outro dia, a caminho do parque, vi uma pessoa atrás da outra a olhar através da lente de um iPhone para uma cerejeira em flor, ou para as tulipas vermelhas na Park Avenue. Alguns estavam a enviar mensagens e nem sequer se deram ao trabalho de olhar. Pétalas cor-de-rosa estavam a ser apanhadas pelo vento e a cair como neve. Era mesmo incrível. O chão estava coberto por um manto de rosa suave.
Hoje está quente e húmido e depois começa a chover torrencialmente. O ácer lá fora da minha janela já está com folhagem verde completa.
Ainda estou a escrever o segundo livro. Trabalho nele todos os dias. Como disse ao Gregory outro dia, ando a escrevê-lo há um ano e seis meses, um mínimo de cinco horas por dia, sete dias por semana (ou às vezes seis). Quantas horas são essas? Estou na terceira versão e também tenho rascunhos na terceira pessoa, bem como na primeira pessoa. Mais dois arquivos de cenas cortadas.
É um truque para manter o controle de tudo, mas o maior truque é manter minha perspectiva ao transitar da visão geral para o detalhe e vice-versa. Às vezes, acho que estou capturando algo único e perfeito e, então, olho de um ângulo diferente e percebo que me desviei e preciso reduzir e trabalhar a partir da última coisa que parece genuína. Essa é outra armadilha: a tênue linha entre o que é sincero, genuíno e o que é sentimental. Então, é ir e vir, de perto e recuar. Ler do começo. Cortar, cortar. Acordar com uma nova ideia, implementá-la. Sentir-se inspirado. Pensar (erroneamente) que finalmente descobri o segredo. Perder essa perspectiva, e assim por diante. Se eu algum dia terminar isso, vou escrever algumas músicas.
Tenho lido bastante também. Não consigo imaginar escrever sem ler. Quando travo, preciso mergulhar no fluxo das palavras de outro escritor — alguém que me inspire. Tenho lido Men in The Off Hours, de Anne Carson, nas últimas manhãs. (“Março atirou suas facas contra a porta.”) The Snow Queen de Michael Cunningham (excelente.) O que mais? Contos de Alice Munro e Edith Perlman. Ambas escrevem personagens e diálogos verdadeiros e convincentes. Elas são magistrais. Leio as histórias delas antes de dormir e espero acordar com um pouco da habilidade delas impregnada em mim.
Ah, está chovendo torrencialmente agora! Uma tempestade torrencial e o sol a sair ao mesmo tempo. Agora trovões. Agora a chuva diminui...
